domingo, 21 de julho de 2013

O segredo da esfinge !...

 
 
Acabo de receber a visita de... não sei se lhe hei-de chamar anjo ou demónio, tal o teor "macabro" da revelação que me veio trazer. Veio esse ser - celestial ou infernal, saberei amanhã! - segredar-me ao ouvido a razão que levou a "esfíngica figura presidencial" às Selvagens! Que foi com o propósito de por lá encontrar a inspiração para a decisão mais difícil da sua vida!...
 
E ainda não digerira eu, tão surpreendente quanto hermética revelação, desapareceu, deixando-me como que rodeado de uma intensa e estranha luz de profunda e inexplicável sabedoria, que me permitiu, a mim, que pouco antes tinha acabado de apreciar toda a sublime sapiência dos mais diversos comentadores e politólogos que apontava para a "certeza absoluta" de que a "múmia" iria amanhã pelas 20.30 anunciar aos seus "concidadões" que tinha decidido que o governo continuaria em funções até ao fim da legislatura em 2015, que afinal não será assim.
 
A "pedra esfíngica", compreendi então, terá voado e navegado até às Selvagens, para ali conseguir encontrar o predicado que lhe faltava para tomar a dramática decisão de amanhã... selvagem!... O nosso Chefe de Estado, que por milagre daquelas paragens agrestes, terá regressado do Sul, rebelde e selvagem, contrariará amanhã as opiniões de tão eminentes sábios dos ecrãs mágicos, surpreenderá todos os seus ilustres "concidadões" e será responsável por milhares de síncopes cardíacas, muito particularmente centradas nas sedes dos partidos à sua direita:
 
Amanhã anunciará, de forma quase glaciar, que vai dissolver a AR e convocar eleições, já !!!...
 
Até breve
 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Há um mínimo de dignidade que não se negoceia !!!...

 
 
 
Com o devido respeito por quantos eventualmente não comunguem do meu pensamento. Com o devido respeito por figuras respeitáveis da classe política portuguesa, tanto à esquerda quanto á direita. Com o devido respeito por essa classe inestimável de analistas e comentadores políticos, que diariamente tem vindo a público, com manifestas deficiências de pudor, massajando descaradamente o seu umbigo ideológico. Com o devido respeito pelos representantes de todas as forças presentes em sede de concertação social, seja do lado dos empregadores, seja do lado dos trabalhadores. Com o devido respeito pela opinião do mais alto magistrado da República Portuguesa. Quero aqui dizer, com a liberdade que me foi oferecida na gloriosa madrugada de 25 de Abril, que acabo de viver a suprema satisfação de assistir ao Secretário Geral do Partido Socialista, António José Seguro, a falar em meu nome.
 
Sou um cidadão como milhões de outros e tenho da política a sensibilidade suficiente para me aperceber do presente envenenado que o Presidente da República entregou ao Partido Socialista, quando exigiu dos "partidos do arco da governação" um entendimento que permitisse o cumprimento integral de um dito "memorando de entendimento", que há muito deixou de ser o "memorando de entendimento da Troika". Tenho também da política a sensibilidade suficiente para me aperceber que o governo actual há muito entregou a alma ao criador e que só a estúpida compaixão, a ausência completa de dignidade e o dramático funeral de todos os mais básicos princípios socialistas por parte de António José Seguro, poderiam permitir a "ressurreição" pretendida pelo próprio e pelo seu suporte institucional  de Belém.
 
Nesta condição, aqui presto a minha humilde homenagem à mensagem que António José Seguro acaba de me transmitir, como a todos os portugueses a quem se dirigiu. Na minha simples e modesta opinião, o Secretário Geral do Partido Socialista, acaba de proceder ao funeral definitivo do governo "ainda" em funções e dos partidos que "ainda" o suportam, assim como de eliminar dramaticamente, com enorme respeito e sentido de estado, todas as alternativas que "ainda" possam "vegetar" na mente pouco isenta e desprovida de coragem do Chefe de Estado.
 
Com muita pena minha, António José Seguro sempre me pareceu um político frouxo, a quem dificilmente alguma vez entregaria o meu voto. Hoje deu-me uma valente e inesperada vergastada. Que ainda dói e, felizmente, espero que doa por muito tempo. Por isso, que não foi pouco nem menosprezável, a partir de hoje, venham as eleições quando vierem, o meu sentido de voto será profundamente reformulado e Seguro será sempre, uma forte possibilidade. Porque "há um mínimo de dignidade que um homem jamais poderá negociar" !!!... 
 
Até breve
 
 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Segura-te pá !...

 
 
 
E segundo as últimas notícias, os negociadores da "troika lusa", saíram de novo da sede laranja com uma mão cheia de nada e a outra ocupada com as pastas, que deveriam trazer o "acordo reduzido a escrito", ainda com as folhas em branco.
 
Consta que alguém terá sugerido a suspensão dos trabalhos, não para irem todos dormir, mas para se aconselharem com os respectivos travesseiros. É um ditado do povo, que terá sido lembrado: "o travesseiro é bom conselheiro"! E não esqueçam que esta gente está a trabalhar... para o Povo!...
 
O grande problema no acordo, adivinha-se: 4,7 mil milhões de euros !... A esta hora, lá nas Selvagens, a "esfíngica criatura", estará a dar voltas nos alvos lençóis. Que grande sarilho! E, ou muito me engano, ou vai haver ultimato, assim a modos que igual ao mapa cor de rosa!...
 
Querem ver que de tanto se falar em eleições antecipadas, elas ainda acabam por acontecer, sabem aonde?! Pois, é isso, exactamente no... Partido Socialista! Segura-te pá !...
 
Até breve

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Esquerda Unida, sonho ou utopia ?!...

Um sonho possível, ou utopia ?!...


 
Ao que parece, ainda não foi desta que pudemos assistir ao lançamento das bases para a construção  de um programa comum de esquerda em Portugal. Seria demasiado bom que esse meu velho sonho, que porventura milhões de portugueses comigo partilharão, chegasse assim, tão depressa e tão facilmente. Tão ambicioso e bonito projecto, se alguma vez puder ser concretizado, nunca derivará apenas da derrocada da direita, como agora tantos admitiram, a começar por este velho idealista, que nunca mais aprende a conviver, resignadamente, com utopias.
 
A falta de pragmatismo, o respeito democrático pela opinião de outros e o erro estratégico evidenciados pelo PCP e pelo BE, há pouco mais de dois anos com o chumbo de PEC IV, para além de terem precipitado a estrondosa derrota eleitoral dos três partidos de esquerda com os resultados que estão à vista, provocaram uma tão profunda ferida no PS, que dificilmente será ultrapassada e cicatrizará num tão curto espaço de tempo.
 
Depois, a radicalização e a persistência dos dois partidos mais à esquerda, numa posição de demagógico afrontamento e negação dos acordos estabelecidos com as entidades internacionais que há dois anos nos têm permitido sobreviver, em vez de contribuírem para a correcção e melhoria das condições estabelecidas e para a implementação de políticas internas capazes de proporcionar ao país a sustentabilidade e a libertação, acabaram por cavar o intransponível fosso que hoje os separa dos socialistas. 
 
Dominique Strauss-Kahn  na sua primeira entrevista depois do escândalo que protagonizou, talvez possa ajudar os líderes da esquerda portuguesa - a direita jamais terá possibilidades de recuperação - a compreenderem a realidade da desgraça que nos atravessa e a estabelecerem um redentor antídoto. Que nunca passará por "rasgar o memorando estabelecido com a Troika" como preconiza o BE, ou abandonar a UE e a Zona Euro, como defende o PCP, ou adoptar uma política de mimetização, com rótulo diferente, daquela que tem sido perseguida em Portugal nos últimos dois anos, como muito provavelmente o PS fará se e quando ganhar as próximas ou remotas eleições subsequentes à crise que se abateu de forma avassaladora sobre Portugal.
 
Aquilo que Strauss-Kahn diz a partir do minuto 10 da sua entrevista, é sintomático sobre as razões da crise europeia que vem determinando a desgraça grega, que parece aproximar-se perigosamente desta lusa pátria, perante a sede insaciável de protagonismo de um abstruso chefe de estado, acolitado por uma direita incompetente e corrupta e inexoravelmente dependente de uma alternativa de esquerda, que deveria estar unida e, em vez de deixar passar o tempo afagando umbigos ideológicos ou alimentar sonhos pessoais de poder, que inevitavelmente sublimarão a catástrofe, inverter esta dramática e inconsciente caminhada para o abismo. 
 
 



Dominique Strauss-Kahn é um socialista. Como o próprio admite, terá cavado a sua sepultura política e, quem sabe, se a própria sepultura da Europa, já que François Hollande há muito passou de esperança a desilusão. Mas será que o pensamento, lucidez, inteligência e saber deste homem, a ninguém aproveitam dentro de uma esquerda, que o povo português há tanto tempo convida a governar?!...
 
Até breve

terça-feira, 16 de julho de 2013

Será desta ?!...

 

Ainda não consegui concluir com segurança suficiente, se foi da recente vaga de calor, se da idiota palhaçada também recente da maioria ou se terá sido até consequência da mais recente ainda,  última aparição da múmia aos três pastorinhos. O que me parece evidente é que PCP e BE avançaram com propostas de encontros, no sentido, supõe-se, de lançar as bases, com o PS, para a construção de uma programa comum de esquerda em Portugal.
 
A vaga de calor já era, mas nada garante que não volte um dia destes. Os palhaços da maioria esconderam momentaneamente os adereços, mas a breve trecho hão-de vasculhar de novo no baú dos arrumos e voltarão a enfarpelar-se. Está-lhes no sangue, nada haverá a fazer. Quanto à "esfíngica criatura", só no cataclismo de uma demissão improvável ou na longa espera da fase terminal do um mandato que, para mal dos nossos pecados ainda vem distante, estaria a solução, pelo que melhor será não pensarmos no que poderia ser mas, decididamente, não é.
 
A "parôla" estratégia cavaquista, na hora aplaudida pelos mais do que evidentes beneficiários, visaria salvar da guilhotina eleitoral a escangalhada, incompetente e nefasta maioria e arrastar também para o cadafalso o inseguro PS. E isso teria naturalmente acontecido, não fora ter entrado, ao que parece e oxalá tenha acontecido, de repente um raio de luz através das janelas do imenso casarão do Rato. E a Alberto Martins foi entregue uma extensa vara de equilíbrio e colocada sobre os seus ombros a difícil missão de ensaiar os primeiros passos, sem pressas de alguma vez chegar ao fim, o longo cabo estabelecido pela múmia, entre Belém e o Largo.
 
Vai ser curioso, empolgante e entediante, apreciar o número de sagaz equilíbrio acrobático de Alberto Martins. Curioso para todos aqueles que de boletim de voto antecipadamente em riste, aguardarão, suspensos, os avanços e recuos que necessariamente protagonizará, apenas preocupado em, de vara na mão, conseguir a anulação da estratégia da esfinge, sem nunca chegar a Belém e ficando o mais próximo possível de casa. Empolgante para os que, em silêncio, da casa da partida lhe apreciarão a acrobacia, sem pressas e apenas rezando pelo seu equilíbrio, enquanto vão ensaiando já o próximo número do espectáculo. Entediante para os que do lado da maioria - governo e presidente - só demasiado tarde levantarem o cu das bancadas, com a certeza de que "nem o pai vem, nem a gente almoça"!...
 
Entrada a direita em histeria, as contas serão fáceis de fazer: o PCP e o BE até poderão, com mais ou menos dificuldade, obter o segundo resultado eleitoral nas próximas eleições, atirando o PSD para o velório da Basílica da Estrela, com Passos Coelho ao volante do carro de cangalheiro e, "last but not least", será no PS que se concentrarão os votos dos que estão fartos de troika e da concomitante austeridade. Naturalmente. Não alinhando Seguro na estratégia cavaquista e encanando a perna à rã na prossecução da disfarçada mas desejada coligação de direita, será mais do que evidente que será tão fácil como limpar o rabinho a um bébé.
 
E de regresso ao princípio, faltará aquilo a que, desde a "revolução dos cravos", estúpida e incompreensivelmente - ou talvez não! -, o povo português ainda não teve o privilégio de assistir: ao lançamento das bases para a construção de um programa comum de esquerda em Portugal! Será desta ?!...
 
Até breve

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Um pouco mais de tempo, para o remédio final !...


 
 


A falta de clareza do absurdo processo iniciado pelo Presidente da República tem permitido todas as teses sobre as suas verdadeiras intenções. Que, como aqui escrevi, se está a preparar o segundo resgate. Que apenas quer criar as condições para avançar com um governo de iniciativa presidencial. Que quer promover um golpe contra Passos Coelho dentro do PSD. Que está a ganhar tempo e condições para marcar eleições antecipadas sem ser responsabilizado por qualquer tipo de instabilidade. Ou que quer, apenas, lavar as mãos das consequência da actual crise política. Aquilo em que ninguém realmente acredita é que o suposto processo negocial agora começado acabe em qualquer coisa de substancial.

Seja qual for a tese correcta, o que Cavaco Silva fez foi alimentar o pântano político em que vivemos. A falta de clareza do seu discurso apenas promoveu o que de mais mesquinho existe na política, com uma sucessão de jogos escondidos.

O Chefe de Estado pode e deve decidir se mantém este governo, se o substitui por um de iniciativa sua ou se dissolve o Parlamento e marca eleições. E deve fazê-lo de forma cristalina, para não deixar a vida política degradar-se. Para não promover a confusão. Para não termos de ver um ministro a encerrar o debate sobre o Estado da Nação sem se saber que lugar realmente ocupa. Para não assistirmos ao maior partido da oposição a negociar com o PSD e o CDS ao mesmo tempo que vota a favor de uma moção de censura. O Presidente deve preservar e defender as instituições. Não tem autoridade para determinar as posições dos partidos em relação a esta crise e a sua política de alianças. O que é insustentável é ver um Presidente que deixou as instituições democráticas degradarem a sua imagem junto dos cidadãos querer, agora, tutelar quase todo o sistema partidário.

Estas negociações estão fadadas ao fracasso. Pelos limites que o Presidente impôs no seu conteúdo, deixando convenientemente de fora todas as alternativas de que discorda. Pelos prazos definidos, já que numa semana não se decide todo o futuro de um País. Pela tentativa de impor um "negociador", mostrando que é o próprio Presidente que não se considera uma "figura credível". Pela falta de clareza de objectivos. E pelos interlocutores: de um dos lados está um governo que o próprio Presidente deixou como interino, do outro um partido que exige eleições antecipadas e de fora ficaram três partidos, que nem convidados foram a participar nestas conversas. Ao promover esta farsa, Cavaco Silva apenas conseguirá, como aliás pareceu ser o seu objectivo na intervenção que fez aos portugueses, degradar ainda mais a imagem da democracia e dos partidos políticos. Para, seja qual for o seu objectivo final, defender a sua própria imagem.

A única resposta honesta seria não alimentar esta charada. O que passaria por exigir do Presidente uma decisão clara, antes de qualquer conversa entre partidos políticos. Ou seja, que comece, antes de fazer exigências a terceiros, por cumprir o papel que a Constituição lhe reserva.

Se o Presidente considera que o governo tem condições para governar, este governará com a maioria que dispõe. É essa maioria que tem, por sua iniciativa, de procurar ou não um apoio alargado para as medidas que quer tomar. E caberá aos partidos da oposição definir, sem chantagens presidenciais ilegítimas, que posição devem ter sobre o caminho a seguir. Se o Presidente considera que este governo não tem condições para continuar, forma, com as suas exíguas forças, um governo de iniciativa presidencial com apoio maioritário no Parlamento. Ou marca eleições para brevemente, enquanto o financiamento externo está garantido. Tão simples como isto.

Ao entrarem neste circo, que só pode acabar numa enorme frustração para os portugueses e descrédito para os seus actores, os partidos apenas tentam não ficar mal na fotografia. Mas acabarão por pagar o preço de tanta dissimulação. Qualquer "compromisso para salvação nacional", seja lá o que isso queira dizer, passa, antes de tudo, por ter um Presidente capaz de clarificar o que está obscuro em vez de fazer exactamente o oposto. Se não é capaz de tomar decisões, para não ser responsabilizado pelas suas consequências, que o assuma de uma vez por todas. Mas poupe-nos a ralhetes inconsequentes e a golpes palacianos.

Nunca pensei que passados quase 40 anos sobre a recuperação da sua dignidade como povo, esse povo a que pertenço, agarrado a brandos costumes e memória curta, viciado em atroz subserviência social e religiosa, sem coragem ou discernimento para desafiar o Futuro, tivesse ao longo de todo esse tempo dirigido os seus passos para a triste recuperação de uma condição que pouca diferença fará daquela a que foi arrancado pelos Capitães de Abril.

Teve esse povo o discernimento de escolher homens e mulheres capazes de lhe oferecerem uma das constituições mais progressistas da Europa. E teve logo a seguir a capacidade de escolher, entre candidatos carregados das lembranças e bolor do passado, um homem sério e inteligente para ocupar a mais alta magistratura da nação.

E foi prosseguindo o seu caminho, sempre rejeitando maioritariamente o passado, mas sem a argúcia suficiente para se aperceber das sucessivas armadilhas legislativas que esse passado lhe foi subrepticiamente colocando na arquitectura do poder.

E chegámos de novo à beira do precipício: um presidente, uma maioria, um governo, com as vestes do antigamente. Sem a sapiência dos povos com séculos de sedimentação democrática, "este povo que não sabe governar-se nem se deixa governar", caiu no maior logro em que democraticamente nunca pode cair qualquer povo: colocar todos os ovos no mesmo cesto! Nem a experiência "hitleriana" alemã lhe valeu para o que quer que fosse!...

Agora depara com a incompetência e corrupção mais soezes, na sua "casa maior", na Casa da República. E assiste surpreendido e incrédulo às diatribes da mais alta figura do estado: onde julgava estar a sua última defesa da irresponsabilidade, corrupção e incompetência de um (des)governo que as suas próprias mãos colocaram no poder, está uma criatura ignóbil, mesquinha, egocêntrica, retrógrada, inconveniente e teimosamente senil, de que não se livrará antes que se esgote de inanição o resto de tão doloroso mandato.

O cesto dos ovos tombou ao chão e uma gigantesca omelete escorre, como fria lava pelas escarpas do precipício, ao encontro do fundo que já ninguém consegue descortinar. E alguém saberá se porventura ainda haverá remédio?!... Olhando o espectáculo deprimente da escorrente lava amarela, com os pés à beira do precipício, apenas nos faltará, quem sabe... um pouco mais de tempo, para o remédio final !...

Até breve

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A queda de Assunção...



Queda de Assunção

Por Ricardo M. Santos


Assunção Esteves é o que é. A senhora até me merecia respeito, é transmontana e eu tenho uma paixão por Trás-os-Montes, provavelmente por a minha mãe ser transmontana. Há mais coisas que Assunção Esteves tem em comum com a minha mãe. Transmontanas, reformadas e continuam a trabalhar. Ficamos por aqui. Ontem, tal como eu, a minha mãe percebeu que é um carrasco – ou uma carrasca? -, mesmo que Assunção não faça a puta da mínima ideia do contexto da citação que fez, nem de quem a fez realmente. Nem isso importa para o caso. Claro que já há indignados com os malvados manifestantes, que são todos, todos do PCP. São sempre. E ainda bem. Nem me dou ao trabalho de explicar a gravidade da situação ao Henrique Monteiro. Ele percebe-a, mas a poltrona em que está instalado obriga a certos sacrifícios que, no mundo jornalístico, se chamam broches.

Voltemos à Assembleia e às galerias do Povo, enquanto a Assunção e o que ainda resta do Governo não tentam fechá-las. Tentam, pois claro, porque pode o Henrique Monteiro ter a certeza que, assim que essa hipótese seja sequer sugerida, o PCP lá estará para garantir que o Povo continuará a ter lugar nas galerias. O episódio de ontem simboliza o desnorte deste governo morto, de um Presidente da República falecido e paz à sua alma, num drama da vida real que parece transportado da Crónica de uma Morte Anunciada. E de um país entregue a um bando de gente que não faz a mais pálida ideia de como é mundo fora dos carros com vidros escuros, dos melhores gabinetes, dos seguranças, das agendas planeadas ao milímetro para não terem de encontrar-se com aqueles que deveriam representar.

Assunção é uma pobre reformada a quem os carrascos e carrascas pagam a reforma de 7.000 euros por 10 anos de trabalho e continua a trabalhar, recebendo mais de 2.000 euros de despesas de representação, embora eu não perceba bem quem ela representa. A minha mãe trabalha também, arranja umas roupas, que lhe ficou o jeito do ofício que teve nos têxteis. E fá-lo depois de partir o focinho a três cancros, um deles que lhe levou um olho.

Assunção não sabe o risco que corre ao insultar a minha mãe, transmontana com uma vida em Leça da Palmeira. Sangue na guelra, pois claro, para o que for preciso. Os carrascos do país estão na bancada do governo e na maioria que o suporta, não naqueles que lutam todos os dias para sobreviver. Assunção precisa de ir embora com o resto do defunto governo, gozar o merecido descanso ao fim de 10 anos de trabalho.

Nós somos carrascos, sim, desta política miserável que nos condena à fome e a à pobreza. Seremos carrascos deste governo e de outros que lhes sigam as pisadas, até à vitória do Povo. Somos carrascos, temos de ser carrascos, c’à rasca estamos todos nós.

Tenho de vos confessar um pecado. A senhora também me merecia respeito. Quando, já lá vão dois anos, foi eleita entre os seus pares, para a função que hoje desempenha, teve o privilégio de receber de quase todo o hemiciclo, os braços abertos e a simpatia de deputados desde a esquerda à direita. E agora vem o meu pecado: eu também lhe ofereci, sem nada pedir em troca, a minha simpatia. E fui ao ponto de aqui, descarregar toda a minha ingenuidade...

Depois, ao longo destes dois anos, fui recebendo sucessivos  e inimagináveis socos no estômago, à medida que fui conhecendo a fealdade interior de quem julgara bela. Até que a todo o errático percurso da mulher que nos tempos da faculdade cultivou fervoroso maoísmo, "a bela" somou a  inqualificável e indesculpável diatribe de me chamar carrasco, porque assim apelidou o povo a que pertenço e que protestava nas galerias da AR.

Já não é a primeira vez que "a bela" insulta Simone de Beauvoir, citando a sua célebre frase de revolta contra a opressão nazi,  "não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes". O que demonstra tanto a sua fragilidade cultural, quanto a perversidade do seu carácter, que lhe subverterá perigosamente a estrutura mental.

Confessado o "meu pecado", aqui fica, de baraço ao pescoço, a minha humilde contrição, consubstanciada no texto de Ricardo M. Santos, que me emocionou e que entendi como imperdível.

Até breve