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sábado, 28 de novembro de 2015

Ainda me lembro que Américo Thomaz, terá sido bem mais contestado que esta "esfíngica figura plantada em Belém"!...


A azia presidencial



Tal como a 23 de Janeiro de 2011, a noite em que ao tornar-se o Presidente reeleito com o menor número de votos da história da democracia se deixou dominar pelo rancor contra os seus adversários, Cavaco Silva não resistiu, mais uma vez, ao ressentimento e à mediocridade.

Alguns dirão que o discurso do Palácio da Ajuda, na posse do XXI Governo Constitucional, foi apenas a afirmação óbvia dos poderes presidenciais de que dispõe a três meses do fim de mandato. Mas, na verdade, aquilo que se viu foi um homem amargo e contrafeito por estar limitado nos seus desejos e incapaz de digerir todas as soluções que a democracia oferece, por mais originais que elas sejam.

É sabido que Cavaco nunca quis esta solução. Fez aliás tudo o que podia para a protelar e evitar. E nem sequer hesitou em recorrer ao mais sectário dos discursos produzidos no pós-25 de Abril por um chefe de Estado - foi a 22 de Outubro de 2015 que brutalizou PCP e BE -, para condenar ao degredo político partidos que há 40 anos aceitam o jogo democrático. Está no seu direito enquanto cidadão, mas como Presidente da República compete-lhe não discriminar ou sequer ser força de bloqueio. E ontem ameaçou vir a sê-lo. Cavaco fez questão de sublinhar que António Costa só é primeiro-ministro porque ele, o Presidente, está impedido de dissolver o Parlamento e, desta forma, procurou diminuir a legitimidade desta solução que, política e constitucionalmente, é incontestável. Afirmou, em tom de ameaça, que não abdica de nenhum dos poderes que a Constituição lhe confere - era o que faltava que o fizesse -, deixando por isso em aberto a hipótese de vetos políticos constantes e até, no limite, a demissão do governo para assegurar o regular funcionamento das instituições. Citou relatórios da OCDE, do Conselho de Finanças Públicas e do Banco de Portugal para, de forma implícita, afirmar que não confia nas opções de política económica e financeira do novo governo que, apesar de tudo, aceitou empossar. E o resultado da soma de tudo isto, levado à letra o infeliz discurso, seria uma aberração política e democrática. Ou seja, a consequência lógica das palavras de Cavaco Silva seria um governo sob tutela presidencial, impróprio de uma democracia parlamentar como a nossa, e, no limite, a ida a votos, tantas vezes quantas as necessárias, até que o resultado fosse do seu agrado. Provavelmente, e na altura ninguém percebeu, era a isto que se referia Passos Coelho quando decretou a doutrina do "que se lixem as eleições". Felizmente, em 1982, o legislador constitucional foi sábio porque há alturas na história em que, como se vê, os presidentes podem ser perigosos.

É certo que vivemos um tempo novo em que o governo que tomou posse é de um partido que não ganhou as eleições. Mas isso não lhe retira qualquer legitimidade porque, além de conformado pela Constituição, os governos, como bem explicou o novo primeiro-ministro, respondem politicamente perante a Assembleia da República e não perante o Presidente da República. E também é verdade que as posições conjuntas - que nem acordos se chamam - são curtas e dão, aparentemente, poucas garantias de solidez e durabilidade. Mas isso, como se viu pela crise do irrevogável do Verão de 2013, não é assegurado por mais firmes e robustos que sejam os casamentos.

Mas nada disso justifica a tentativa do Presidente de admoestar António Costa, usando a intimidação para lhe fazer sentir que está com contrato precário, recusando-se a encarar o facto de que é ele, Cavaco, quem já está no fim do prazo em Belém. O estrebucho, em dia de inauguração, era dispensável e não é bonito. Augura pouco de bom para a coabitação que resta. Mas, tal como o apocalipse decretado a 22 de Outubro por Cavaco Silva foi combustível para a unidade das esquerdas, pode ser que também este discurso seja o cimento necessário para que as minorias relativas que se somaram para deitar abaixo a direita se transformem agora numa maioria mais do que conjuntural.
(Nuno Saraiva, Rua de S. Bento, in DN)

Nuno Saraiva é, de forma vertical e corajosa, um "desalinhado" no meio do complexo e generalizado amálgama de genuflexão em que parece ter-se transformado a nova geração do jornalismo português, a caminho de uma tão estúpida quanto porventura irreversível petrificação.

E creio que, embora já alguém o tenha feito, não será preciso chamar de "palhaço" o ainda inquilino de Belém, para lhe adjectivar o carácter e a postura. Nuno Saraiva consegue-o com elevação e sem beliscar o respeito que a todos deve merecer a figura do mais alto magistrado da República.

É incontornável e o período conturbado que vivemos desde as últimas eleições legislativas acaba desgraçadamente de o confirmar, estamos a pouco mais de 100 dias de assistir à "retirada" pela porta dos fundos do pior presidente da ainda jovem II República de Portugal, cuja acção e prejuízos subsequentes a História se encarregará de avaliar. Mas que ninguém duvide que terá estado na benevolente e quantas vezes inclassificável aceitação dessa acção nefasta, por parte do "quarto poder", a razão porque chegámos aqui, sem aneís e quase sem dedos!...

Ainda me lembro que Américo Thomaz, terá sido bem mais contestado que esta "esfíngica figura plantada em Belém"!...

Até breve

sábado, 14 de novembro de 2015

Estupidamente, preparado para atear o rastilho!...


A hora de Cavaco

«Derrubado o governo no Parlamento, onde tinha de ser numa democracia parlamentar, o Presidente da República desencadeou novo processo de consultas. Os patrões, que não são eleitos, desfilaram na ladainha do costume. Disseram-lhe o que se esperava, que tenha cuidado porque os comunistas são um perigo para a democracia - como se estivesse no horizonte um governo com PCP e Bloco - e que o que era bom era um governo de gestão - à falta de um bloco central, esse mesmo dos interesses, porque era bom para os negócios. Os sindicatos, mais ou menos encarniçados, sugeriram que indigite António Costa, mal por mal é de esquerda e até cumpre os requisitos constitucionais. 

Em pista paralela, os líderes partidários vão-se desmultiplicando em frases típicas do PREC - fala-se de usurpação e fraude com a mesma facilidade com que o diabo esfrega um olho - e o país suspenso de sua excelência o Presidente da República. Entretanto, na pré-campanha para Belém, os candidatos a sucessores desdobram-se na unanimidade da crítica a Passos Coelho e seus devaneios constitucionais e nos apelos para que Cavaco Silva não deixe resvalar para quem lhe suceda a batata quente da decisão. Nem Marcelo quer arcar com as consequências de um governo de gestão. 

E o que faz Cavaco? Mantém o silêncio em que, dizem os cavacólogos, é mestre a gerir. Mais ainda, segue viagem para a Madeira em plena crise política que urge resolver. A margem de que dispõe é estreita, muito estreita. Mesmo a contragosto pouco lhe resta que não seja indigitar António Costa. Afinal de contas é alternativa constitucional e política legítima, por mais que as "posições conjuntas" lhe causem dúvidas e até comichões. Nem os mercados lhe dão argumentos de instabilidade. E até há as agências de rating que afirmam que as palavras de Mário Centeno são cruciais para que a avaliação de risco do país se mantenha em perspectiva de estabilidade. 

Governo de gestão não é solução aceitável para ninguém. Seriam oito meses de sobressalto e agitação social, com o país em risco e sitiado pelo protesto e a direita a queimar em lume brando. Portugal precisa de um governo que governe e não que gira o abismo. Cavaco sabe disso melhor do que ninguém. E é por isso que, mesmo a contragosto, não deixará de assumir as suas responsabilidades. Até porque, honra lhe seja feita, se há coisa que Cavaco não ignora é que tem aqui a derradeira oportunidade para concluir o seu mandato com dignidade.»
(Nuno Saraiva, editorial DN, hoje)


"Portugal precisa de um governo que governe e não que gira o abismo"! Em contraciclo com uma importante fatia, pretensamente maioritária, dos meios de comunicação social, completamente subjugada às posições "falangistas", Nuno Saraiva pensa e afirma sem pruridos e com a coragem que lhe impõem os mais básicos princípios éticos e deontológicos da profissão que escolheu, aquilo que vai na cabeça de quem, seja de Direita ou Esquerda, ainda não vendeu a alma ao diabo.

É que o "abismo" de que fala, está aí, à vista de todos nós: um país fracturado, a assar em lume brando, um barril de pólvora que a qualquer momento pode explodir e fazer-nos recuar 40 anos!...

Mas o mais grave de tudo o que se passa à nossa volta, será o facto de ser precisamente aquele que deveria ser o garante do equilíbrio, da harmonia e da paz social de quem o elegeu, que parece preparar-se, estupidamente, para atear o rastilho!...

Até breve