Um tema interessante e porventura de importância capital no futuro de todos nós, este que João Paulo aborda hoje no blogue Aventar e de que passo a reproduzir, com a devida vénia, um excerto que reflecte a matriz do seu pensamento e que há muito tempo, décadas talvez, partilho:
"... se nós, eleitores de esquerda, defendemos uma sociedade que é mais justa, mais solidária, mais equilibrada, etc, etc, etc, como é que estamos sempre a perder? Porque é que os eleitores não votam à esquerda?...", rematando depois "... Será que podemos também ganhar? Ou será que vamos perder sempre?...".
Há muito que tenho a profunda convicção de que, pelo caminho actual, muito dificilmente os que pensam esquerda, algum dia poderão vir a cantar vitória. O que de modo algum significará que estarão irremediavelmente condenados a perder sempre. Porque, a meu ver, residindo a razão fundamental que tem suportado as decepções do passado e destruído as pontes do futuro, numa simples e despretensiosa palavra, desencontro, bastará o prefixo desaparecer.
Há um desencontro total e completo entre as propostas que a esquerda há décadas teima em apresentar e bem assim, o modo subjectivo, hermético e carregado de naftalina ideológica com que o faz e a água pura e cristalinamente transparente, fresca e revigorante que o povo desejaria beber.
O povo está farto de ver invocado o seu nome, para que, subrepticiamente, lhe continuem a chamar estúpido. O povo está farto da exaltação de estereotipos ideológicos de que há muito lhe chegaram notícias de um ruir clamoroso e confrangedor. O povo está farto que lhe apresentem o que não quer, com roupagens novas e convidativas, ou escondido sob capotes carregados de bolor.
Sejamos claros e desmistificadores. Toda a cúpula dirigente do PCP, continua a pretender esconder a foice e o martelo, de braço dado com uns "Os Verdes" que todos sabem o que são e sob a capa das três letrinhas CDU, que farão sentido para os seus ideólogos, mas que para o povo jamais deixarão de constituir o rabo de fora do gato escondido. Isso é chamar estúpido ao povo de quem pretendem os votos. À cúpula dirigente do PCP, apenas resta um de dois caminhos: ou prossegue de forma autista com o passo trocado e verá a sua influência decrescer até ao ridículo, quando o velho bastião alentejano e os cada vez mais raros micro-cosmos espalhados pelo país, seguirem a lei inexorável da vida, ou aprende com o povo e luta ombro a ombro com ele e por ele, sem amarras ideológicas a um passado, que por muitas loas que lhe sejam cantadas, jaz para sempre entre teias de aranha.
A clareza e a desmistificação deverá necessariamente alargar-se ao BE, cujo "aggiornamento" provocou nas penúltimas eleições, uma onda de esperança generalizada e fortes pinceladas de vermelho no hemiciclo que nos representa, mas onde, aí precisamente, a prática política desbaratou completamente o capital antes acumulado, particularmente junto das novas gerações. O Bloco terá perdido a oportunidade histórica de ganhar a mais importante das batalhas, aquela que poderia catapultá-lo definitivamente para o poder: a da credibilidade! Terá conseguido fazer o mais difícil: chegar ao limiar do encontro com o povo. Mas depois, com tanta gente a querer ao mesmo tempo subir os degraus da escada para o poder, estes acabaram por ceder e todos tombaram no chão e perder a dita, a credibilidade ! Mas a oportunidade perdida, terá inviabilizado o futuro?!... Recomeçar nunca foi fácil, mas o sonho sempre comandará a vida. Se os erros servirem para alguma coisa...
Claro que para terminar aqui, com clareza desmistificadora, o meu pensamento, também por aqui fica a minha esquerda. Não há mais esquerda para mim e nem pretendo dizer porquê. Porque nem as moscas mudam e ... seguramente, não haverá ninguém que me convença do contrário.
Até breve
